A poeira ainda cheirava à pólvora, a “machira” não se tinha destruído completamente, bem como os estilhaços do medo pela pessoa branca continuavam ferindo alguns nativos. Embora o pesadelo, as pessoas passavam por ali. Embora a terra ainda ensanguentada, produzia-se ali a mandioca e o milho.
Albuquerque era um camponês português, uns daqueles que escapou o recolher obrigatório do pós independência. Proprietário de uma vasta extensão de terra, cujo produto era comercializado nas cidades.
De tantos trabalhadores que tinha coube-lhe escolher um que pudesse ajudar-lhe a controlar os campos em cultivo e no final do dia o trouxesse relatórios. Joaquim foi o escolhido, no meio a multidão que participou da prova de selecção.
A partir dali, Joaquim tomou as rédeas e todas manhãs, ele viajava de um lado para outro, monitorando o trabalho de seus semelhantes e logo à tardinha antes de ir à sua casa (que distava a 800m da do patrão) passava a deixar relatório das actividades.
Num desses dias, depois de Joaquim ter relatado o relatório, Albuquerque pôs-lhe numa prova:
-Eu estou para viajar para Portugal, tu bem sabes que todos já foram e a cada dia os “turras” nos incomodam. Aceitas a proposta que te vou colocar? Questionou Albuquerque
- Depende do patrão, eu não tenho problemas. Afirmou Joaquim muito ansioso.
- Olha Joaquim, eu dou-te toda essa propriedade, todas essas terras que jamais nenhum “turra” adquirirá, e mais, tenho uma mala de dinheiro dalo-to-ei também. Joaquim entra no quarto do fundo e voltou com uma maleta.
- Todo esse dinheiro será teu, mais terras. Tu nunca serás pobre, muito menos seus filhos. Declarou Albuquerque com uma voz sôfrega.
- Então patrão o que quer que eu faça? Questionou Joaquim preocupado.
-Simples ainda essa noite você pode ter tudo isso. Pode ter tudo isso…
Reinou um silêncio, uma porção de vento pairou e entreolharam-se tímidos. Albuquerque engoliu um cálice de saliva, espreguiçou-se, encheu os pulmões e com toda coragem, disse:
- Tens que trazer a cabeça da sua esposa esta noite e tu levas tudo isso.
- Cabeça, como assim cabeça patrão? Questionou Joaquim todo surpreso.
- Sim cabeça, degoles a sua esposa. Tire a cabeça e traga-a aqui.
- Não precisa responder, vá à casa, pense e repense, que te espero a noite!
A noite tombara, a escuridão avivava os pássaros nocturnos. Joaquim desceu as escadas e tropeou em direcção à casa. A cabeca explodia de tanto pensar o que fazer. Joaquim queria vida folgada, mas nunca pensou naquele extremo.
Depois do conduto, a família foi-se deitar. Mas Joaquim não conseguiu dormir. Porque queria satisfazer a vontade de seu patrão que o esperava, pegou na catana e aos poucos foi se aproximando à esposa, Joaquim parou com a catana nas mãos, mas este não conseguiu realizar acção. Reparou nos seus quatro filhos deitados por ali e reparou a esposa deitada na sua cama. Joaquim não resistiu, fios de lágrimas bateram violentamente o nariz em direcção ao chão. De seguida, sentiu frieza na consciência abrangendo os músculos dos braços e abandonou a catana. Voltou a dormir.
Joaquim disse de si para si: “eu não vou fazer isso. Eu não vou matar minha esposa por nada. E se eu mato, que felicidade terei com tudo que obtiver? Que sentido fará matando minha esposa para ganhar riqueza, se dia-pós-dia, trabalho para juntos usufruirmos. Que o patrão me perdoe.”
De manhã cedo foi apresentar-se ao patrão e aproveitou informar que não conseguiria mais fazer o combinado porque segundo ele, a família era sua única felicidade. O patrão nada respondeu. Dali, Joaquim seguiu à machamba.
Albuquerque viu sua sede não satisfeita, tendo de imediato mandado chamar a esposa de Joaquim (que chegara em casa de Albuquerque para acaretar água). Esta largou os utensílios e correu preocupada para Albuquerque, o patrão. Este propôs-lhe o mesmo desafio qual o marido. Mostrou a vastidão das terras, o dinheiro e tudo.
A esposa de Joaquim não vacilou, tendo garantido ao patrão a entrega da cabeça do esposo ainda naquela noite. A esposa foi à casa, afiou a catana e escondeu-a em baixo da cama. A noite chegou Joaquim apareceu todo cambado de cansaço. Mal comeu foi deitar-se.
A esposa, de seguida pôs seus filhos a dormir e depois foi também à cama. Afastou para seu lado o instrumento do crime e deitou-se. Deu tempo seu marido dormir profundamente. A esposa levantou-se e sem pensar no futuro dos filhos e na vida do seu esposo, em um segundo apenas, essa arriou a catana certamente no pescoço do Joaquim, tendo o separado do resto do corpo.
Tratou de enterrar o corpo e levou a cabeça (embrulhada no saco) ainda à noite para o patrão. Tendo chegado à casa, a esposa de finado bateu a porta de Albuquerque. Este perguntou de lá dentro:
-Quem?
-Sou eu a esposa de Joaquim, trago a cabeça dele.
Albuquerque lá dentro gritou:
Eu estava a testar-te, não foi nada sério. É melhor sair da minha casa, senão chamo polícias.
A esposa de Joaquim sentiu-se totalmente abatida, arasada, arrependida e transtornada . Chorou rio de lágrimas e seguiu em direcção ao único poço da comunidade. Atirou-se nele junto a cabeça de Joaquim. Morreu ali por afogamento.
Albuquerque era um camponês português, uns daqueles que escapou o recolher obrigatório do pós independência. Proprietário de uma vasta extensão de terra, cujo produto era comercializado nas cidades.
De tantos trabalhadores que tinha coube-lhe escolher um que pudesse ajudar-lhe a controlar os campos em cultivo e no final do dia o trouxesse relatórios. Joaquim foi o escolhido, no meio a multidão que participou da prova de selecção.
A partir dali, Joaquim tomou as rédeas e todas manhãs, ele viajava de um lado para outro, monitorando o trabalho de seus semelhantes e logo à tardinha antes de ir à sua casa (que distava a 800m da do patrão) passava a deixar relatório das actividades.
Num desses dias, depois de Joaquim ter relatado o relatório, Albuquerque pôs-lhe numa prova:
-Eu estou para viajar para Portugal, tu bem sabes que todos já foram e a cada dia os “turras” nos incomodam. Aceitas a proposta que te vou colocar? Questionou Albuquerque
- Depende do patrão, eu não tenho problemas. Afirmou Joaquim muito ansioso.
- Olha Joaquim, eu dou-te toda essa propriedade, todas essas terras que jamais nenhum “turra” adquirirá, e mais, tenho uma mala de dinheiro dalo-to-ei também. Joaquim entra no quarto do fundo e voltou com uma maleta.
- Todo esse dinheiro será teu, mais terras. Tu nunca serás pobre, muito menos seus filhos. Declarou Albuquerque com uma voz sôfrega.
- Então patrão o que quer que eu faça? Questionou Joaquim preocupado.
-Simples ainda essa noite você pode ter tudo isso. Pode ter tudo isso…
Reinou um silêncio, uma porção de vento pairou e entreolharam-se tímidos. Albuquerque engoliu um cálice de saliva, espreguiçou-se, encheu os pulmões e com toda coragem, disse:
- Tens que trazer a cabeça da sua esposa esta noite e tu levas tudo isso.
- Cabeça, como assim cabeça patrão? Questionou Joaquim todo surpreso.
- Sim cabeça, degoles a sua esposa. Tire a cabeça e traga-a aqui.
- Não precisa responder, vá à casa, pense e repense, que te espero a noite!
A noite tombara, a escuridão avivava os pássaros nocturnos. Joaquim desceu as escadas e tropeou em direcção à casa. A cabeca explodia de tanto pensar o que fazer. Joaquim queria vida folgada, mas nunca pensou naquele extremo.
Depois do conduto, a família foi-se deitar. Mas Joaquim não conseguiu dormir. Porque queria satisfazer a vontade de seu patrão que o esperava, pegou na catana e aos poucos foi se aproximando à esposa, Joaquim parou com a catana nas mãos, mas este não conseguiu realizar acção. Reparou nos seus quatro filhos deitados por ali e reparou a esposa deitada na sua cama. Joaquim não resistiu, fios de lágrimas bateram violentamente o nariz em direcção ao chão. De seguida, sentiu frieza na consciência abrangendo os músculos dos braços e abandonou a catana. Voltou a dormir.
Joaquim disse de si para si: “eu não vou fazer isso. Eu não vou matar minha esposa por nada. E se eu mato, que felicidade terei com tudo que obtiver? Que sentido fará matando minha esposa para ganhar riqueza, se dia-pós-dia, trabalho para juntos usufruirmos. Que o patrão me perdoe.”
De manhã cedo foi apresentar-se ao patrão e aproveitou informar que não conseguiria mais fazer o combinado porque segundo ele, a família era sua única felicidade. O patrão nada respondeu. Dali, Joaquim seguiu à machamba.
Albuquerque viu sua sede não satisfeita, tendo de imediato mandado chamar a esposa de Joaquim (que chegara em casa de Albuquerque para acaretar água). Esta largou os utensílios e correu preocupada para Albuquerque, o patrão. Este propôs-lhe o mesmo desafio qual o marido. Mostrou a vastidão das terras, o dinheiro e tudo.
A esposa de Joaquim não vacilou, tendo garantido ao patrão a entrega da cabeça do esposo ainda naquela noite. A esposa foi à casa, afiou a catana e escondeu-a em baixo da cama. A noite chegou Joaquim apareceu todo cambado de cansaço. Mal comeu foi deitar-se.
A esposa, de seguida pôs seus filhos a dormir e depois foi também à cama. Afastou para seu lado o instrumento do crime e deitou-se. Deu tempo seu marido dormir profundamente. A esposa levantou-se e sem pensar no futuro dos filhos e na vida do seu esposo, em um segundo apenas, essa arriou a catana certamente no pescoço do Joaquim, tendo o separado do resto do corpo.
Tratou de enterrar o corpo e levou a cabeça (embrulhada no saco) ainda à noite para o patrão. Tendo chegado à casa, a esposa de finado bateu a porta de Albuquerque. Este perguntou de lá dentro:
-Quem?
-Sou eu a esposa de Joaquim, trago a cabeça dele.
Albuquerque lá dentro gritou:
Eu estava a testar-te, não foi nada sério. É melhor sair da minha casa, senão chamo polícias.
A esposa de Joaquim sentiu-se totalmente abatida, arasada, arrependida e transtornada . Chorou rio de lágrimas e seguiu em direcção ao único poço da comunidade. Atirou-se nele junto a cabeça de Joaquim. Morreu ali por afogamento.
Timoteo Ribeiro, in: a coragem feminina! 2014
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