Em tempos de apocalipse profundo, rei Ntubi não sossegava, pois não passava um dia sequer sem que um dos seus mutumes morresse. O poder dos lebas, curandeiros do rei, não mais funcionava. Havia um ano em que filha de rei sofreu picada de cobra sumba, tendo os lebas feito tudo e nada resultado. Safi morreu dias depois. Curandeiros de todos os cantos reuniram-se para analisar a situação, pois animais bem como a população morriam sem que ninguém descobrisse a causa. Contudo, nessa conferência, chegou-se à conclusão que se tratava de manifestações dos últimos dias. Os pés estavam mergulhados no apocalipse terreno.
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Depois que o rei morreu, constituiu-se nova liderança. Ntubi II tomou as rédeas do reinado sob fortes contestações internas. Apesar disso, as mortes recuaram. Os animais engordavam do pasto. A vida da população voltara à normalidade. Havia festa ali e acolá. As plantas também não tinham escapado a fúria do mal, mas felizmente já haviam começado a esverdear.
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Logo pela manhã, um dos mutumes veio informar o rei que havia um grupo de pessoas, aparentemente enlouquecidas planificando derrubar e ocupar o reinado. Pouco tempo depois, a notícia propalou-se. O rei confirmou. Notando isso, instou seus militares para estarem em prontidão combativa e em todos os cantos do reinado. A medida visava neutralizar qualquer ação dos loucos, caso estes quisessem invadir o reinado e/ou tentassem criar pânico à população.
Veio a tarde, o sol entregava-se a última nuvem. Pássaros vasculhavam último gole ao estômago. Dois raios de sol iluminavam terminalmente afazeres do dia. A noite caia tão penosa quanto dois cristais que se arrastam da mesa de casais desavindos.
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Uma semana antes, Zé, o mutilado em consequência do afloramento de uma mina ante pessoal semeada no tempo de guerra, apoiou-se às muletas e foi ao encontro do rei revelar o sonho que tivera.
- Aceita por favor os meus cumprimentos. Eu não apenas vim ver meu rei. Eu vim dizer que sonhei enquanto o rei acordou entre despojos que exalavam cheiro de feder. Assustado reparou nos lados e viu um monte de lixo. De seguida ouviu gritos da população, pedindo socorro. Um mutume desarmado acorreu a sua direcção e disse. – Rei, os loucos já ocuparam o reinado.
Alguns mutumes foram encontrados mortos. Os loucos apoderaram as armas durante a noite do relógio diabólico. O Rei Ntubi II não resistiu. No terceiro dia, entregou-se ao laço da corda. Os loucos avivaram e ocuparam efectivamente o reinado.
Implantaram a ditadura. Todo mundo temia-lhes. Quem ousasse falar a verdade era perseguido e exterminado. A população vivia a moda gato, comendo as migalhas quando caíssem mesa a baixo, enquanto eles desfrutavam do fruto de rombo, em bares e caviares, mansões, carros luxos, aviões particulares, sexo e droga.
Tempos depois, a população conformou-se. Noite e dia rezava aos seus deuses, debaixo das arvores para a vinda da chuva, única esperança. A alegria pobre era total quando a chuva caísse e pudessem cultivar o suficiente para seus estômagos, para excedente e outra parte, embora insignificante, para os mercados.
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